El Niño pode ser um dos mais intensos dos últimos 50 anos, diz meteorologista

Fenômeno deve provocar períodos prolongados de calor e chuva concentrada, com impactos sobre a produção agropecuária e aumento do risco de queimadas em Mato Grosso do Sul

| RCN67


Meteorologista alerta para períodos de calor intenso, baixa umidade e maior risco de queimadas em MS durante a atuação do fenômeno - Reprodução/Internet

Durante entrevista ao programa Agro é Massa, da Massa FM, o meteorologista Guilherme Borges explicou que o El Niño previsto para a safra 2026/2027 pode alcançar uma intensidade excepcional e provocar efeitos prolongados sobre o clima brasileiro. Segundo ele, o fenômeno já está estabilizado na região central do Pacífico, com temperatura 1,8 grau acima da média na região 3.4.

Borges explicou que o aquecimento das águas do Pacífico altera a circulação atmosférica e interfere diretamente nas condições climáticas de diferentes regiões do Brasil. No Centro-Oeste, a principal tendência é de períodos com massas de ar mais quentes e temperaturas acima da média por vários dias consecutivos, além de uma maior concentração das chuvas.

“O fenômeno El Niño tem essa questão de aquecimento das águas do Pacífico e ele muda a circulação para a América do Sul. Ao mudar a circulação para a América do Sul, ele começa também a mudar a circulação atmosférica nos estados'.

Fenômeno pode superar marcas históricas

O meteorologista comparou o cenário atual com episódios anteriores e destacou que apenas três eventos registrados desde o início das medições apresentaram intensidade semelhante à que está sendo projetada: 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016.

Na escala meteorológica, um El Niño é classificado como fraco, moderado, forte ou muito forte. A classificação de intensidade considera a anomalia da temperatura das águas do Pacífico na região 3.4. Quando o aquecimento supera 2 graus, o fenômeno passa a ser considerado muito forte.

Borges avalia que o episódio atual pode ultrapassar essa marca e chegar a mais de 3 graus de anomalia, superando inclusive o recorde de 2,8 graus registrado em 2015.

“Este fenômeno está se desenhando para caminhar para uma escala muito forte. Ele pode, de fato, superar os fenômenos El Niño dos últimos anos, dos últimos 50 anos'.

Apesar da intensidade, o meteorologista pondera que um El Niño mais forte não significa necessariamente a ocorrência de eventos extremos em todas as regiões. Outros fatores climáticos, como as condições do Oceano Atlântico, também interferem na atmosfera brasileira.

Efeitos prolongados sobre o clima

O principal alerta, segundo Borges, está na duração do fenômeno. Episódios dessa intensidade costumam permanecer ativos por pelo menos um ano, e a projeção atual indica que os efeitos podem continuar até o próximo inverno.

A expectativa é de que o El Niño comece a perder força a partir de maio de 2027, mas a dissipação completa deve levar mais tempo devido ao grande volume de calor acumulado no Pacífico.

“Provavelmente a gente entre aí um pouco do nosso inverno do ano que vem ainda sobre efeitos do fenômeno de El Niño. Então a gente deve ter, sim, uma configuração duradoura em questão de efeitos climáticos no Brasil'.

Impactos no Centro-Oeste

Para Mato Grosso do Sul e demais estados do Centro-Oeste, a tendência é de períodos mais quentes e secos, com baixa umidade persistindo durante vários dias. A combinação entre temperaturas elevadas, tempo seco e maior incidência de radiação solar pode favorecer a expansão das queimadas.

O cenário preocupa especialmente nos próximos meses, já que setembro costuma concentrar o pico das queimadas no Brasil, segundo o meteorologista. A condição deve atingir também os diferentes biomas de Mato Grosso do Sul.

“Isso potencializa as queimadas. Tempo seco, umidade muito baixa durante vários dias. Isso são combinações, somada com a temperatura elevada, que favorecem principalmente a expansão das queimadas'.

Chuva concentrada em outras regiões

Enquanto o Centro-Oeste deve enfrentar maior persistência de massas quentes, o Sul do Brasil apresenta tendência de chuvas mais concentradas. O Rio Grande do Sul já registra volumes elevados e, segundo Borges, algumas regiões acumularam mais de 750 milímetros de chuva em julho.

A região Norte e o Nordeste, por outro lado, devem apresentar redução das chuvas à medida que a influência do fenômeno avance, embora a resposta ainda dependa também das condições do Atlântico.

Para o meteorologista, diante de um cenário climático prolongado e de grande variabilidade, o acompanhamento das previsões deve ser utilizado como ferramenta de planejamento, especialmente no setor agropecuário.

“A gente precisa ter um cuidado, ter essa questão da informação meteorológica como tomada de decisão'.

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